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Pessoas, Entidades
CADC - Centro Académico de Democracia Cristã
PT-AHS-ICS-CADC · Pessoa coletiva · 1901 - 1969

O CADC foi fundado em Coimbra em 1901, para responder ao agravamento da questão religiosa ocorrido nesse ano no país.

O governo de Hintze Ribeiro adoptara uma série de medidas contra as ordens religiosas. Um decreto de 18 de Abril obrigava os institutos religiosos a submeterem a aprovação oficial os seus estatutos, e proibia-lhes o regime de clausura, os noviciados e os votos. Contra estas disposições se insurgiram os bispos, e de um modo especial o Bispo do Porto D. António Barroso, que viria a ser apupado na Sala dos Capelos da Universidade, a 28 de Junho, quando ali se dirigiu por ocasião de um doutoramento solene, como padrinho do novo doutorando. Os estudantes católicos, indignados com a provocação aos seus sentimentos religiosos, resolveram reagir e, depois de várias reuniões, decidiram fundar um Centro Académico.

Pensaram de início chamar-lhe Centro Nacional Académico, mas acabariam por mudar-lhe o nome para Centro Académico de Democracia Cristã, não só para evitar a confusão com os Centros Nacionais, que dariam origem em 1903 ao Partido Nacionalista, mas também para sintonizar com o movimento social católico mundial, que adoptara a forma de “democracia cristã”, e com os Círculos de Estudos lançados em França por Léon Harmel. O CADC seria assim um centro de estudos e de acção, estreitamente ligado aos Círculos Católicos de Operários, fundados em Portugal em 1898, e às demais estruturas do movimento social católico, para tentar recristianizar o ambiente universitário coimbrão e, através dele, a sociedade portuguesa.

Com sede própria, embora não definitiva, logo em 1904, só no ano seguinte obtém a legalização, com a aprovação oficial civil e clesiástica dos seus estatutos, muito contribuindo para tal a figura tutelar do Doutor Francisco José de Sousa Gomes, professor de Química inorgânica e dirigente do movimento católico. O número de sócios, em 1905, era já de uma centena.

Mas a projecção do Centro na academia e no país iria dar-se sobretudo com o aparecimento, nesse ano, da revista Estudos Sociais, na qual os estudantes católicos iriam assumir posições avançadas e inovadoras, desse modo contribuindo para uma mais aguda consciência social católica e para uma maior difusão das experiências sociais e políticas que os católicos democratas iam ensaiando lá fora. Para além das simpatias pelo movimento francês de Le Sillon e pelo movimento italiano de Don Romulo Murri, que seriam depois desautorizadas por Pio X, sob a acusação de modernistas, os Estudos Sociais criticavam o despotismo czarista da Rússia, aceitavam a separação do Estado e da Igreja, que ocorrera em França em 1905, e criticavam a instrumentalização política da Igreja pelo conservadorismo, defendendo que a acção da Igreja deveria ser “absolutamente democrática e abertamente popular”. Tanto bastou para que sobre a revista fossem lançadas acusações de “modernismo” pela Revista Católica de Viseu, das quais se defendeu pela pena autorizada do Prof. Sousa Gomes, que na sombra a protegia. Ao CADC de Coimbra, outros se seguiram, de menor importância e expressão, em Lisboa, Porto e Braga, tendo-se chegado a constituir em 1909 uma União da Juventude Católica Portuguesa. Mas a revolução republicana, e a perseguição que moveu à Igreja, iria desmantelar o movimento e motivar o seu relançamento pouco depois.

  1. A reabertura do CADC e a luta à política anti-religiosa da 1ª República

Com a revolução republicana, o CADC foi desmantelado, a sua sede saqueada e encerrada. A perseguição à Igreja expulsara os Bispos das dioceses e decapitara o movimento social católico. No verão de 1911, um grupo de estudantes católicos decide reagir ao clima de hostilidade e prepara o lançamento, que ocorrerá em 1912, de um jornal de combate – O Imparcial – dirigido por Manuel Gonçalves Cerejeira. Esses estudantes reabrem o CADC em 8 de Dezembro desse ano, sob a direcção de Cerejeira e Salazar, e constituem a partir dele a Federação das Juventudes Católicas Portuguesas, que organiza o I Congresso em Coimbra em 1913.

O CADC assume por isso um carácter defensivo e combativo, e a sua actuação revela-se de cunho mais conservador do que no período anterior. Os seus militantes envolvem-se na luta pela liberdade religiosa e pela liberdade da Igreja, e distinguem-se nas lutas académicas pelo empenho na qualificação da vida universitária. E quando em 1917 é fundado o Centro Académico, notabilizam- se entre os seus activistas, vindo até a tornar-se seus dirigentes e deputados. Os centristas que a partir de 1926 vão ser chamados ao governo, à frente dos quais Salazar, saíram na sua grande parte das fileiras do CADC. Em 1919, o jornal O Imparcial cessou a sua publicação, aparecendo em 1922 a nova revista Estudos do CADC, que se publicará ininterruptamente até 1970.

  1. O CADC e a Acção Católica Portuguesa

Em 1932 foram aprovadas as Bases da Acção Católica, sendo o CADC integrado nela, como parte da Juventude Universitária Católica (a sua secção universitária) e na Juventude Escolar Católica (a sua secção escolar ou liceal). Como organismo da Acção Católica, alheio a qualquer intervenção política, o CADC não deixou porém de conhecer algumas clivagens dessa natureza, nomeadamente a que dividiu monárquicos, de pendor mais integralista, e “centristas” que subordinavam as suas preferências políticas à militância católica, clivagem essa que chegou a traduzir-se na contraposição de listas para a direcção.

No pós-guerra, o ressurgimento da democracia-cristã nos países onde foram derrotados regimes totalitários e autoritários (Alemanha, Itália, Áustria e França), apoiado pela Radiomensagem de Pio XII no Natal de 1944, fez ressurgir no CADC a simpatia por expressões políticas da democracia-cristã, pelo neotomismo de Maritain e pelo “personalismo cristão” de matriz francesa. Algumas posições assumidas pelos Estudos provocaram acusações de politização. E, em 1949, um dos seus dirigentes apareceu publicamente a apoiar a candidatura presidencial de oposição de Norton de Matos.

Ao longo dos anos 50, o fascínio pelas ideias da democracia e das liberdades foi crescendo no CADC. Após o I Congresso da JUC de 1953, os Estudos reflectem uma maior atenção aos problemas sociais dos universitários, e às actividades circum-escolares e associativas, entendidas como actividades formativas quer do ponto de vista moral quer social.

A repressão soviética da revolução húngara, em 1956, suscitaria uma forte reacção dos estudantes do CADC, que organizaram uma jornada de solidariedade com os estudantes e operários em luta pela liberdade, de colaboração com a JOC de Coimbra. A reivindicação de liberdade para a “Igreja do silêncio” tinha reflexos internos, fazendo crescer o apreço doméstico pela liberdade política, pela autonomia universitária e pelo associativismo estudantil. Por isso, a direcção do CADC e os Estudos viriam a opor-se ao Decreto-Lei 40.900, rejeitando a “demasiada ingerência do Estado na livre associação dos indivíduos e consequentemente também nos organismos académicos, pois aquela gera um paternalismo deformador e estiolante”.

E crescia também a atenção aos problemas sociais, objecto de um ciclo de conferências, em 1958, entre as quais uma do Bispo do Porto. Nas eleições presidenciais desse ano, que dividiram o mundo católico pela atitude do Bispo do Porto, a direcção do CADC foi mesmo ao ponto de fazer uma avaliação do regime, enaltecendo os méritos (paz, ordem, progresso económico e prestígio internacional) mas criticando também as deficiências (ausência de liberdade de imprensa, abusos da polícia política, desequilíbrios sociais, fragilidades da assistência e da educação).

Tais posições suscitariam reacções de sectores mais conservadores. Manuel Anselmo, nos seus Cadernos, acusaria o CADC de “sacristia anti-salazarista” e de “catolicismo progressista”.

  1. A crise ultramarina e as crises estudantis

O começo da “guerra de Angola” e a ocupação de Goa, em 1961, levaram o CADC, onde as preocupações missionárias haviam aumentado, a identificar- se com as preocupações de defesa do Ultramar. E o despoletar das crises estudantis, como a de 1961, suscitou no CADC, a par da preocupação pela defesa do associativismo, a da defesa da autoridade.

O ataque aos lares religiosos de estudantes, por ocasião do Convívio, nos começos de 1961, e a publicação na Via Latina da “Carta à Jovem Portuguesa”, atacando a moral dominante como conservadora, provocou a reacção crítica do CADC. A destituição da direcção da Associação Académica e a suspensão da Via Latina, na sequência dos acontecimentos do Dia do Estudante, com a radicalização de posições e a instrumentalização política da luta estudantil pela oposição ao regime, puseram o CADC numa posição de difícil equilíbrio. Se por um lado fazia suas as reivindicações estudantis de restabelecimento da vida associativa, por outro lado recusava essa radicalização e instrumentalização política, que rejeitou a mediação moderadora de professores, e afrontava as autoridades académicas, ao lado das quais se pôs. Essa posição custou-lhe algum isolamento no movimento associativo desses anos, profundamente radicalizado.

Mas nos últimos anos da década de 60, o CADC, agitado também pelos ventos pós-conciliares, e cada vez mais aberto aos problemas sociais e políticos do tempo, aproximou-se mais do movimento estudantil, acabando por ser envolvido pela dinâmica da crise de 69. Os Estudos publicarão alguns números especiais sobre os problemas da Universidade e sobre a crise académica, manifestando o seu alinhamento, embora moderado, com a contestação estudantil. A crise de 1969 abalaria o CADC, particularmente a sua unidade, obrigando ao encerramento das suas actividades pela autoridade eclesiástica e à criação alternativa do Instituto Justiça e Paz, nos primeiros anos da década de 70.

Oliveira, César.
PT AHS-ICS CO · Pessoa singular · 1941-1998

Cesar Oliveira, historiador e resistente ao Estado Novo, nasceu em Fiais da Beira, Oliveira do Hospital, a 26 de Março de 1941. Estudou no Colégio Braz de Mascarenhas, em Oliveira do Hospital, e no liceu D. João III, em Coimbra. Em 1959 ingressou na Faculdade de Direito da Universidade daquela cidade. Aderiu ao Partido Comunista Português com o qual viria a romper mais tarde. Participou na campanha eleitoral para a Assembleia Nacional em 1961 e, militante associativo, envolveu-se na vida académica e nas lutas estudantis, nomeadamente nas do ano decisivo de 1962, e acabará por ser expulso da Universidade por se ter recusado a entregar documentação relativa a uma Assembleia Magna da Associação Académica de Coimbra. Inscreveu-se no curso de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e casou-se em 1964, ano em que parte para Angola para cumprir o serviço militar, estabelecendo uma forte relação pessoal e política com Ernesto Melo Antunes. Trabalhou no Banco Português do Atlântico e na Mabor (de onde é expulso por actividade sindical) e entre 1966 e 1969 fez parte do Sindicato dos Bancários do Porto. Terminou o curso em 1969 e ensinou em liceus no norte do país. Empenhado na actividade cultural, associou-se à Cooperativa Cultural Confronto e foi um dos fundadores da Editorial Afrontamento, onde publica, ele próprio, e dinamiza publicações sobre o movimento operário. Participou na campanha de 1969 na Comissão Democrática Eleitoral (CDE) e em 1972 fará parte do chamado “grupo do Flórida” que incluía elementos como Jorge Sampaio, João Cravinho ou Nuno Brederode Santos, muitos deles ligados às lutas académicas de 1962. Após o 25 de Abril será um dos fundadores do Movimento de Esquerda Socialista (MES) e dirigiu o respectivo jornal “Esquerda Socialista”. Viria a abandonar o MES e a ingressar ao Grupo de Intervenção Socialista (GIS). Em 1975 trabalhou no Ministério da Comunicação Social do IV Governo Provisório e foi adjunto do ministro Correia Jesuíno.
Fundou a Frente Operária e a União de Esquerda para a Democracia Socialista (UEDS) em 1977 e associou-se à Frente Republicana e Socialista (FRS). Foi eleito deputado à Assembleia da República pelo círculo de Faro entre 1980 e 1985 pela FRS. Tornou-se militante do Partido Socialista e apoiou a candidatura de Jorge Sampaio à Presidência da República, presidiu à Câmara Municipal de Oliveira do Hospital (1990-1994), foi eleito membro da Assembleia Municipal de Lisboa e da Assembleia da Área Metropolitana de Lisboa (1994).
Destacando-se, inicialmente, sobretudo pela investigação sobre a história do movimento operário, do socialismo, do sindicalismo ou da I República, a sua carreira académica e docente notabilizou-se também pelos trabalhos seminais sobre a génese do Estado Novo e as suas relações com Espanha, ou, mais tarde, sobre a História da Administração e do Poder Local. Em 1972 começou a dar aulas no Instituto Superior de Economia e integrou a redacção da revista “Análise Social”. Em 1986 doutorou-se no Instituto Superior de Ciências Políticas de Lisboa com a tese “A consolidação do salazarismo e a guerra civil de Espanha” que dará origem ao livro “Salazar e a Guerra Civil de Espanha”.
Foi professor auxiliar do ISCTE, leccionando História Contemporânea de Portugal, na licenciatura em Sociologia, e coordenou a área de História. Em 1993 passou a professor auxiliar agregado e, em 1997, a professor catedrático convidado. Ministrou ainda as cadeiras de Política Externa Portuguesa, no curso de Mestrado de História Contemporânea, e de História Contemporânea de Portugal da licenciatura em Economia. Viria ainda a leccionar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Coordenou o curso de pós-graduação em Gestão Autárquica no Instituto Superior de Gestão e colaborou na licenciatura em Ciência Política da Universidade Internacional.
É autor de obras como “O Operariado e a República Democrática. 1910-1914”, “A Criação da União Operária Nacional”, “O Socialismo em Portugal. 1850-1900. Contribuição para o Estudo da Filosofia Política do Socialismo em Portugal na Segunda Metade do Século XIX”, “O 1º Congresso do PCP”, “A Revolução Russa na Imprensa Operária da Época”, ”Treze Cartas de Portugal para Marx e Engels”, “Portugal e a II República de Espanha”, “Salazar e o seu Tempo”, “Os Anos Decisivos. Portugal 1962-1985”, “Cem Anos de Relações Portugal/ Espanha”.
Viria a morrer prematuramente a 5 de Junho de 1998, vítima de doença prolongada aos 57 anos. Em 1999 foi distinguido com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade e, em 2005, com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.