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            2 Pessoas, Entidades resultados para Gana

            Lutterodt, Gerhardt Ludwig
            PT/AHS-ICS/GLL · Pessoa singular · c.1850-?

            Nascido por volta de 1850, Gerhardt Lutterodt, filho de uma notável família mestiça dinamarquesa de Acra, foi provavelmente o primeiro fotógrafo de uma dinastia de fotógrafos radicados em Acra (Costa do Ouro, atual Gana). Percorreu as cidades portuárias entre Freetown e Duala de barco a vapor, acabando por se tornar um influente divulgador das tecnologias fotográficas; ainda hoje é recordado em Acra e Lomé pelos descendentes dos estúdios abertos há um século. Os descendentes de Lutterodt expandiram ainda mais o seu negócio; William, provavelmente um primo seu, anunciava estúdios nos movimentados entrepostos de Cape Coast e Elmina em 1880.
            Um sobrinho, Frederick (1871-1937), abriu o estúdio Duala em Accra em 1889; o filho de Gerhardt, Erick (1884-1959), estabeleceu o estúdio Accra no mesmo bairro em 1904.
            Os estúdios Lutterodt em Accra, em particular, expandiram-se e multiplicaram-se pelo menos até 1950. Coletivamente, as suas imagens documentaram a paisagem urbana em expansão, acontecimentos e personagens políticos e cerimónias culturais, e testemunham uma expansão da documentação visual para fins privados e públicos.

            Menezes, Hugo de.
            Pessoa singular · 1928-2000

            Hugo José Azancot de Menezes nasceu em 2 de fevereiro de 1928, na freguesia da Conceição, concelho de São Tomé, em São Tomé e Príncipe, filho de Ayres do Sacramento Menezes e Aida Ramos Azancot de Menezes. Entre 1931 e 1933, a família Menezes mudou-se para Angola, seguindo o percurso profissional do tenente miliciano médico Ayres do Sacramento Menezes, após desinteligências com as autoridades, devido a uma tentativa frustrada de candidatura ao Conselho Colonial, posteriormente Conselho Superior das Colónias, por São Tomé e Príncipe. Instalaram-se inicialmente na Chibia, próximo da cidade do Lubango, à época Sá da Bandeira. Essa vivência angolana marcou de forma decisiva toda a vida de Hugo de Menezes.

            Cursou inicialmente o Liceu Diogo Cão, no Lubango, e, em seguida, mudou-se com sua mãe e seus cinco irmãos – Ayres Henrique, Manuel Pedro, Óscar Jacob, Leah Aida e Maria Antonieta – para Lisboa. Os mais velhos ingressaram na universidade, enquanto Hugo de Menezes foi terminar os estudos escolares no Liceu Camões, em Lisboa. Após o ingresso na Faculdade de Medicina, em Lisboa, participou ativamente da Casa dos Estudantes do Império (CEI), onde estreitou os laços com estudantes de outros cursos e origens, tomou consciência da ampliação da onda independentista que se formou no continente africano e das avultadas dimensões que a luta contra o colonialismo português exigiria.

            Após a formatura em Medicina, em fevereiro de 1959, chegou a Londres e aí começou a construir uma rede de contactos políticos com naturais de países africanos já independentes ou em processo de conquista da independência. Passou por Paris, em julho de 1959, a tempo de se vincular formalmente ao Movimento Anticolonial (MAC), antes de se estabelecer em Conacri, na Guiné, em agosto de 1959.

            Em janeiro de 1960, participou da II Conferência do Povos Africanos, em Tunes, e assinou, enquanto membro da Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional (FRAIN), que substituiu o MAC no correr da própria Conferência, o primeiro documento a explicitar a sigla MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola).

            Na capital guineense casou-se com Maria de La Salette Guerra de Menezes e viu nascer a sua primeira filha, Awa Guerra de Menezes. Em Conacri, trabalhou como médico, participou na organização do Movimento de Libertação dos Territórios Africanos sob Domínio Português (MLTADP) e apoiou de forma assaz decisiva a instalação, naquela cidade, de Amílcar Cabral, Lúcio Lara e Mário Pinto de Andrade, dirigentes da FRAIN. Tal movimento possibilitou a organização da luta pela libertação de Angola e da Guiné-Bissau em outros moldes, ampliando as redes de contactos internacionais, finalmente a partir de uma base de apoio africana. Em Conacri, o MPLA ganhou forma e densidade. Foram criados os estatutos, delineado o programa e a estrutura organizacional. Hugo de Menezes integrou o seu primeiro Comité Diretor.

            Em 1961, mudou-se para Léopoldville (atual Quinxassa) e, juntamente com outros médicos e enfermeiros militantes do MPLA, construiu o Corpo Voluntário Angolano de Assistência aos Refugiados (CVAAR), que ensaiou encobrir durante certo tempo as ações do MPLA no Congo-Léopoldville, porquanto este país era o berço da União das Populações de Angola (UPA), o outro movimento de libertação angolano que se opunha ferozmente a qualquer expansão ou aproximação do MPLA aos angolanos. O CVAAR foi autorizado a atuar no auxílio à crescente massa de refugiados angolanos que chegavam ao Congo, em consequência das retaliações portuguesas pelas ações dos grupos nacionalistas angolanos, que em 4 de fevereiro de 1961, em Luanda, assaltaram as prisões na tentativa de libertar os presos políticos, mas, sobretudo, como resposta ao levante organizado pela UPA na região norte da colónia, em 15 de março do mesmo ano.

            Em Léopoldville, após o estabelecimento da família, nasceu o primeiro filho, Ayres Guerra de Menezes. Não foi apenas a família que cresceu, o MPLA também expandiu, e muito, o seu pequeno grupo dirigente e passou a integrar um número muito elevado de militantes, em virtude desse novo cenário de proximidade com a fronteira norte de Angola.

            Ora esse terreno inédito de atuação forçou o MPLA a responder às provocações da UPA, mais tarde transformada em Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), quanto ao elevado número de mestiços entre os dirigentes do MPLA. Foi assim que ganhou fôlego no interior do próprio Comité Diretor a ideia de substituição de alguns dos seus dirigentes, sob o argumento de proporcionar uma maior proximidade com os angolanos exilados ou instalados no Congo-Léopoldville. Hugo de Menezes foi contrário a essa remodelação e a derrota do seu posicionamento pesou na decisão de abandonar Léopolville.

            Em meados de 1962, Hugo de Menezes mudou-se para Acra, no Gana, na condição de representante do MPLA, sendo seguido posteriormente pela família. Naquela cidade, nasceu a segunda filha, Aida Guerra de Menezes. A tensão entre os líderes do MPLA que permaneceram em Léopoldville aumentou ainda mais após a chegada de Agostinho Neto e a frontalidade da disputa deste com o secretário-geral do Movimento, Viriato da Cruz. A rutura derivou para enfrentamentos armados, prisões e, posteriormente, assassinatos. Como alguns outros dirigentes da primeira hora da organização do movimento, Hugo de Menezes, porventura tentado a afastar-se do MPLA, esteve ligado à refundação do Comité de Libertação de São Tomé e Príncipe em 1965, em Acra.

            Hugo de Menezes permaneceu em Acra até ao golpe de estado que depôs Kwame Nkrumah, em 1966, quando, uma vez mais, se deslocou com a família, desta feita em direção ao Togo, onde permaneceu até um novo golpe militar, em 1967, quando rumou ao Congo-Brazzaville para trabalhar como médico. No ano seguinte, Agostinho Neto, presidente do MPLA, com ótimas relações com o governo do Congo-Brazzaville, retomou o contacto com Hugo de Menezes, convidando-o a assumir a direção dos Serviços Médicos do Movimento na II Região Político-Militar do MPLA.

            O convite foi aceite e seu retorno ao MPLA, enquanto responsável médico no movimento, durou até 1972, quando, diante das dificuldades encontradas no exercício das funções e de uma nova vaga de turbulências no interior da organização, se afastou uma vez mais.

            Continuou em Brazzaville, mas sem conseguir o desenlace por completo dos camaradas do MPLA. Retomou as conversas com antigas lideranças, que, de forma mais concreta, passaram a questionar o que consideravam os desmandos da direção do movimento, especialmente do seu presidente, Agostinho Neto. Assinou em 1974 o manifesto da Revolta Ativa e, dada a sua importância na história do MPLA, foi um dos indivíduos nominalmente criticados de forma bastante dura pela direção.

            O conturbado quadro político interno do MPLA, atravessado por duas dissidências, Revolta do Leste e Revolta Ativa, não impediu que a organização conseguisse chegar ao processo de negociação do cessar-fogo com as Forças Armadas portuguesas e, consequentemente, participasse no Governo de Transição. Após os confrontos entre as três forças nacionalistas angolanas, FNLA, MPLA e UNITA pelo controlo da cidade de Luanda, o MPLA superou as expetativas e saiu vitorioso desse embate, proclamando a independência de Angola em 11 de novembro de 1975.

            Após um período de grande tensão em relação aos quadros signatários do manifesto da Revolta Ativa, as conexões pessoais entre Hugo de Menezes e Agostinho Neto conduziram a uma reaproximação entre ambos. Hugo de Menezes assumiu então, responsabilidades na área médica no novo estado angolano, concretamente, como diretor do Hospital Central de Luanda, que em 1977 passou a chamar-se Hospital Josina Machel. Também trabalhou no Centro de Saúde da Samba como médico de algumas empresas e teve, ainda, um consultório particular. Foi em Luanda que nasceu o seu último filho, Hugo Antunes de Brito Azancot de Menezes.

            Em 1996, mudou-se pela última vez, desta feita para Portugal. Faleceu no Hospital Fernando da Fonseca, na Amadora, no dia 1 de maio de 2000.

            Referências bibliográficas

            BITTENCOURT, Marcelo, “Estamos Juntos!” O MPLA e a Luta Anticolonial (1961- 1974), 2 vols, Luanda, Kilombelombe, 2008.
            CEITA, João Guadalupe Viegas de, Memórias e Sonhos Perdidos de Um Combatente pela Libertação e Progresso de São Tomé e Príncipe, [s. l.], [s. e.], 2012.
            LARA, Lúcio, Um Amplo Movimento: Itinerário do MPLA através de Documentos e Anotações de Lúcio Lara, Vol. I, Luanda, Edição do Autor, 1998.
            MABEKO-TALI, Jean-Michel, Guerrilhas e Lutas Sociais. O MPLA perante si próprio. (1960-1977), Lisboa, Mercado de Letras, 2018.
            MENEZES, Hugo Azancot de, Percursos da Luta de Libertação Nacional. Viagem ao interior do MPLA. Memórias Pessoais, organização, fixação e revisão do texto, preâmbulo, notas e comentários de Carlos Pacheco, Lisboa, Nova Veja, 2017.
            PACHECO, Carlos, MPLA. Um Nascimento Polémico (As Falsificações da História). Lisboa, Vega Editora, 1997.

            Última atualização: 26 de julho de 2022

            Augusto Nascimento
            Marcelo Bittencourt