Associativismo

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          Associação Resistência e Trabalho (ART)
          Pessoa coletiva · 1970-1984

          Fundada em 1970, a Associação Resistência e Trabalho (ART) era, sobretudo, composta por refugiados políticos que aproveitavam para pedir asilo. Desde o seu início, a ART divide-se entre os partidários de uma organização para todos os emigrantes ou apenas para os "resistentes". Entre os seus fundadores encontra-se Felisberto Marques Reigado, militante do PCP(ML), sendo que a ART viria a apoiar O Salto (jornal publicado em França para a emigração) e a fundar o Movimento de Trabalhadores Portugueses Emigrados (MTPE).

          A partir da década de oitenta, iniciam-se conversações para a uma possível fusão com outras associações de emigrantes de forma a poder dar mais apoio. Essa fusão viria a consumar-se em abril de 1984, entre a ART e a Casa Portuguesa, dando lugar à A.P.A - Associação Portuguesa de Amsterdão.

          CADC - Centro Académico de Democracia Cristã
          PT-AHS-ICS-CADC · Pessoa coletiva · 1901 - 1969

          O CADC foi fundado em Coimbra em 1901, para responder ao agravamento da questão religiosa ocorrido nesse ano no país.

          O governo de Hintze Ribeiro adoptara uma série de medidas contra as ordens religiosas. Um decreto de 18 de Abril obrigava os institutos religiosos a submeterem a aprovação oficial os seus estatutos, e proibia-lhes o regime de clausura, os noviciados e os votos. Contra estas disposições se insurgiram os bispos, e de um modo especial o Bispo do Porto D. António Barroso, que viria a ser apupado na Sala dos Capelos da Universidade, a 28 de Junho, quando ali se dirigiu por ocasião de um doutoramento solene, como padrinho do novo doutorando. Os estudantes católicos, indignados com a provocação aos seus sentimentos religiosos, resolveram reagir e, depois de várias reuniões, decidiram fundar um Centro Académico.

          Pensaram de início chamar-lhe Centro Nacional Académico, mas acabariam por mudar-lhe o nome para Centro Académico de Democracia Cristã, não só para evitar a confusão com os Centros Nacionais, que dariam origem em 1903 ao Partido Nacionalista, mas também para sintonizar com o movimento social católico mundial, que adoptara a forma de “democracia cristã”, e com os Círculos de Estudos lançados em França por Léon Harmel. O CADC seria assim um centro de estudos e de acção, estreitamente ligado aos Círculos Católicos de Operários, fundados em Portugal em 1898, e às demais estruturas do movimento social católico, para tentar recristianizar o ambiente universitário coimbrão e, através dele, a sociedade portuguesa.

          Com sede própria, embora não definitiva, logo em 1904, só no ano seguinte obtém a legalização, com a aprovação oficial civil e clesiástica dos seus estatutos, muito contribuindo para tal a figura tutelar do Doutor Francisco José de Sousa Gomes, professor de Química inorgânica e dirigente do movimento católico. O número de sócios, em 1905, era já de uma centena.

          Mas a projecção do Centro na academia e no país iria dar-se sobretudo com o aparecimento, nesse ano, da revista Estudos Sociais, na qual os estudantes católicos iriam assumir posições avançadas e inovadoras, desse modo contribuindo para uma mais aguda consciência social católica e para uma maior difusão das experiências sociais e políticas que os católicos democratas iam ensaiando lá fora. Para além das simpatias pelo movimento francês de Le Sillon e pelo movimento italiano de Don Romulo Murri, que seriam depois desautorizadas por Pio X, sob a acusação de modernistas, os Estudos Sociais criticavam o despotismo czarista da Rússia, aceitavam a separação do Estado e da Igreja, que ocorrera em França em 1905, e criticavam a instrumentalização política da Igreja pelo conservadorismo, defendendo que a acção da Igreja deveria ser “absolutamente democrática e abertamente popular”. Tanto bastou para que sobre a revista fossem lançadas acusações de “modernismo” pela Revista Católica de Viseu, das quais se defendeu pela pena autorizada do Prof. Sousa Gomes, que na sombra a protegia. Ao CADC de Coimbra, outros se seguiram, de menor importância e expressão, em Lisboa, Porto e Braga, tendo-se chegado a constituir em 1909 uma União da Juventude Católica Portuguesa. Mas a revolução republicana, e a perseguição que moveu à Igreja, iria desmantelar o movimento e motivar o seu relançamento pouco depois.

          1. A reabertura do CADC e a luta à política anti-religiosa da 1ª República

          Com a revolução republicana, o CADC foi desmantelado, a sua sede saqueada e encerrada. A perseguição à Igreja expulsara os Bispos das dioceses e decapitara o movimento social católico. No verão de 1911, um grupo de estudantes católicos decide reagir ao clima de hostilidade e prepara o lançamento, que ocorrerá em 1912, de um jornal de combate – O Imparcial – dirigido por Manuel Gonçalves Cerejeira. Esses estudantes reabrem o CADC em 8 de Dezembro desse ano, sob a direcção de Cerejeira e Salazar, e constituem a partir dele a Federação das Juventudes Católicas Portuguesas, que organiza o I Congresso em Coimbra em 1913.

          O CADC assume por isso um carácter defensivo e combativo, e a sua actuação revela-se de cunho mais conservador do que no período anterior. Os seus militantes envolvem-se na luta pela liberdade religiosa e pela liberdade da Igreja, e distinguem-se nas lutas académicas pelo empenho na qualificação da vida universitária. E quando em 1917 é fundado o Centro Académico, notabilizam- se entre os seus activistas, vindo até a tornar-se seus dirigentes e deputados. Os centristas que a partir de 1926 vão ser chamados ao governo, à frente dos quais Salazar, saíram na sua grande parte das fileiras do CADC. Em 1919, o jornal O Imparcial cessou a sua publicação, aparecendo em 1922 a nova revista Estudos do CADC, que se publicará ininterruptamente até 1970.

          1. O CADC e a Acção Católica Portuguesa

          Em 1932 foram aprovadas as Bases da Acção Católica, sendo o CADC integrado nela, como parte da Juventude Universitária Católica (a sua secção universitária) e na Juventude Escolar Católica (a sua secção escolar ou liceal). Como organismo da Acção Católica, alheio a qualquer intervenção política, o CADC não deixou porém de conhecer algumas clivagens dessa natureza, nomeadamente a que dividiu monárquicos, de pendor mais integralista, e “centristas” que subordinavam as suas preferências políticas à militância católica, clivagem essa que chegou a traduzir-se na contraposição de listas para a direcção.

          No pós-guerra, o ressurgimento da democracia-cristã nos países onde foram derrotados regimes totalitários e autoritários (Alemanha, Itália, Áustria e França), apoiado pela Radiomensagem de Pio XII no Natal de 1944, fez ressurgir no CADC a simpatia por expressões políticas da democracia-cristã, pelo neotomismo de Maritain e pelo “personalismo cristão” de matriz francesa. Algumas posições assumidas pelos Estudos provocaram acusações de politização. E, em 1949, um dos seus dirigentes apareceu publicamente a apoiar a candidatura presidencial de oposição de Norton de Matos.

          Ao longo dos anos 50, o fascínio pelas ideias da democracia e das liberdades foi crescendo no CADC. Após o I Congresso da JUC de 1953, os Estudos reflectem uma maior atenção aos problemas sociais dos universitários, e às actividades circum-escolares e associativas, entendidas como actividades formativas quer do ponto de vista moral quer social.

          A repressão soviética da revolução húngara, em 1956, suscitaria uma forte reacção dos estudantes do CADC, que organizaram uma jornada de solidariedade com os estudantes e operários em luta pela liberdade, de colaboração com a JOC de Coimbra. A reivindicação de liberdade para a “Igreja do silêncio” tinha reflexos internos, fazendo crescer o apreço doméstico pela liberdade política, pela autonomia universitária e pelo associativismo estudantil. Por isso, a direcção do CADC e os Estudos viriam a opor-se ao Decreto-Lei 40.900, rejeitando a “demasiada ingerência do Estado na livre associação dos indivíduos e consequentemente também nos organismos académicos, pois aquela gera um paternalismo deformador e estiolante”.

          E crescia também a atenção aos problemas sociais, objecto de um ciclo de conferências, em 1958, entre as quais uma do Bispo do Porto. Nas eleições presidenciais desse ano, que dividiram o mundo católico pela atitude do Bispo do Porto, a direcção do CADC foi mesmo ao ponto de fazer uma avaliação do regime, enaltecendo os méritos (paz, ordem, progresso económico e prestígio internacional) mas criticando também as deficiências (ausência de liberdade de imprensa, abusos da polícia política, desequilíbrios sociais, fragilidades da assistência e da educação).

          Tais posições suscitariam reacções de sectores mais conservadores. Manuel Anselmo, nos seus Cadernos, acusaria o CADC de “sacristia anti-salazarista” e de “catolicismo progressista”.

          1. A crise ultramarina e as crises estudantis

          O começo da “guerra de Angola” e a ocupação de Goa, em 1961, levaram o CADC, onde as preocupações missionárias haviam aumentado, a identificar- se com as preocupações de defesa do Ultramar. E o despoletar das crises estudantis, como a de 1961, suscitou no CADC, a par da preocupação pela defesa do associativismo, a da defesa da autoridade.

          O ataque aos lares religiosos de estudantes, por ocasião do Convívio, nos começos de 1961, e a publicação na Via Latina da “Carta à Jovem Portuguesa”, atacando a moral dominante como conservadora, provocou a reacção crítica do CADC. A destituição da direcção da Associação Académica e a suspensão da Via Latina, na sequência dos acontecimentos do Dia do Estudante, com a radicalização de posições e a instrumentalização política da luta estudantil pela oposição ao regime, puseram o CADC numa posição de difícil equilíbrio. Se por um lado fazia suas as reivindicações estudantis de restabelecimento da vida associativa, por outro lado recusava essa radicalização e instrumentalização política, que rejeitou a mediação moderadora de professores, e afrontava as autoridades académicas, ao lado das quais se pôs. Essa posição custou-lhe algum isolamento no movimento associativo desses anos, profundamente radicalizado.

          Mas nos últimos anos da década de 60, o CADC, agitado também pelos ventos pós-conciliares, e cada vez mais aberto aos problemas sociais e políticos do tempo, aproximou-se mais do movimento estudantil, acabando por ser envolvido pela dinâmica da crise de 69. Os Estudos publicarão alguns números especiais sobre os problemas da Universidade e sobre a crise académica, manifestando o seu alinhamento, embora moderado, com a contestação estudantil. A crise de 1969 abalaria o CADC, particularmente a sua unidade, obrigando ao encerramento das suas actividades pela autoridade eclesiástica e à criação alternativa do Instituto Justiça e Paz, nos primeiros anos da década de 70.

          Lucena, Manuel de.
          PT-AHS-ICS-ML · Pessoa singular · 1938 - 2015

          Manuel de Lucena nasceu em Lisboa a 7 de Fevereiro de 1938. Viveu a infância e uma parte da adolescência em Angola com a família. Regressou a Lisboa com 16 anos, onde frequentou o Liceu Pedro Nunes e depois um colégio de Jesuítas. Ingressou no Instituto Superior Técnico no curso de Engenharia Química que viria a trocar pelo curso de Direito na Faculdade de Direito, onde se licenciou em 1981. Durante a sua juventude, participou em movimentos monárquicos e católicos, designadamente a JUC (Juventude Universitária Católica), o CCC (cineclube católico) e colaborou n' "O Tempo e o Modo". Depois da crise académica de 1962, passou a militar na Extrema-Esquerda. Redigiu grande parte dos comunicados estudantis da RIA (Reunião Interassociações de Lisboa). A sua oposição à política colonial de Salazar acabou por conduzi-lo ao exílio em 1963. Viveu em Roma, Paris e Argélia. Durante o exílio, foi dirigente do MAR (Movimento de Acção Revolucionária), fez parte da Frente Patriótica de Libertação Nacional e teve uma breve colaboração com a LUAR. Em Paris, estudou no Institut de Sciences Sociales du Travail, onde fez a sua tese sobre o corporativismo. A tese que preparou veio dar origem ao seu primeiro livro — “A evolução do sistema corporativo português”. Vol. I: o Salazarismo; vol. II: o Marcelismo —, publicado em Portugal em 1976.
          Após o 25 de Abril de 1974, regressou a Portugal. Participou, como alferes, no processo de descolonização de Cabo Verde. Veio terminar o seu serviço militar em Lisboa, no Gabinete de Dinamização do Exército, situado no Estado-Maior do Exército. Abandonou a Extrema-Esquerda e apoiou o manifesto do Grupo dos “Nove”, de Melo Antunes. Em 1975, tornou-se investigador do Gabinete de Investigações Sociais (GIS) e depois do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS), que lhe sucedeu, onde fez carreira até se reformar em 2008. A última actividade política que se lhe conhece é adesão à Aliança Democrática e a participação na campanha presidencial do general Soares Carneiro, em 1980. Afastado da política activa, dedicou-se sobretudo ao comentário político e à investigação científica do corporativismo, dos fascismos e totalitarismos, do processo revolucionário português, a descolonização portuguesa e a consolidação democrática no pós-25 de Abril. Foi docente em cursos no Instituto de Defesa Nacional e na Força Aérea (para oficiais generais) e no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica abordando alguns dos referidos temas de investigação, sobre os quais também proferiu conferências e orientou seminários em várias outras instituições.

          Pinto Quartin. Familia
          Família · 1906-2006

          O AHs foi fundado a partir do depósito do Fundo de Pinto Quartin, entre 1979 e 1980. Em 2006 recebeu o espólio de Deolinda Vieira Lopes, companheira de longa data de Pinto Quartin. Recebeu também nessa altura o espólio de Glicinia Quartin, a filha mais nova do casal. O espólio de PQ e o de GQ inclui documentação acumulada por Deolinda Vieira Lopes.

          Quartin, António Tomás Pinto.
          PT-AHS-ICS-PQ · Pessoa singular · 1887-1970

          Filho de pai português e mãe brasileira, nasce no Rio de Janeiro, Brasil. Em 1905 inscreve-se na Universidade de Coimbra para estudar Direito, de onde é expulso em 1907 por participar na greve académica. Em 1913, por ter mantido a nacionalidade brasileira, é expulso para o Brasil, acusado de estar envolvido no rebentamento da bomba lançada na Rua do Carmo em Junho de 1913, e regressa novamente a Portugal em 1915. Trabalhou principalmente como jornalista, tendo dirigido diversas publicações anarquistas, como o jornal Amanhã (1909), Terra Livre (1913) e a redacção d’A Batalha; e colaborado em muitas outras. Casou-se com Deolinda Lopes Vieira, professora primária, e membro do Conselho Nacional de Mulheres Portuguesas, com quem teve 3 filhos.

          Silva, Luíz Henrique da.
          PT AHS-ICS LHSilva · Pessoa singular · 1892-1978

          Nasceu no Porto (freguesia de Massarelos) a 31 de maio de 1892, tendo vindo a casar em 1921 com Gjertrud Magdalene Krohn, de ascendência norueguesa.
          Formado em económicas e financeiras no Instituto industrial e Comercial do Porto, iniciou a sua formação em Inglaterra na Fábrica de chocolates Cadbury, onde estagiou em 1909/10 graças aos laços de colaboração e amizade de seu pai com os irmãos Cadbury, nomeadamente no âmbito do trabalho de recolha de informação e das campanhas contra o trabalho forçado nas roças de São Tomé (Cf. biografia Alfredo Henrique da Silva). Foi nomeado professor provisório desse mesmo Instituto em 1920, transitando para o lugar de professor ordinário em 1925.
          Para além de outras atividades empresariais, adquiriu em 1955 cotas no capital da empresa Fábrica de Chocolates Imperial em Vila do Conde, tendo assumido o cargo de Presidente da administração. Modernizou e aumentou a produção de chocolate e construiu instalações novas, também em Vila do Conde. A fábrica foi vendida em 1973 ao Grupo RAR.
          Teve uma atividade cívica e religiosa prolífica, nomeadamente na Igreja Evangélica Metodista Portuguesa e na Aliança Evangélica Portuguesa. Foi Presidente do Conselho Fiscal da Beneficência Evangélica do Porto e Presidente de uma direção trianual da Associação Cristã da Mocidade do Porto (1963-1965). Apaixonado bibliófilo, morreu no Porto em 1978.

          Temas Estudantis
          Pessoa coletiva · 1966?

          Boletim da Associação dos Estudantes do Instituto Superior Técnico, sobre Política universitária